Ainda, nestes 117 anos de república, no Estado brasileiro não se pratica plenamente um governo regimentado pela democracia, no qual deve-se de maneira insistente perseguir o ideal de divisão eqüitativa do poder político. É este último a matriz da força de um povo, pois fomenta as ações da população a fim de garantir os objetivos comuns a todo país, gerando progresso e desenvolvimento.
No entanto, no Brasil, durante o período eleitoral, vê-se que os cidadãos são usados apenas como "braço" político àqueles que desejam alcançar um posto eletivo no Governo. Tais "braços" dispendem sua força de ação em um trabalho burro, ignorante, impulsionado pelo marketing político gerido nos centros nervosos dos partidos, que favorecem, exclusivamente, seus partidários.
Em meio a esta conjuntura, o poder político esvai-se das mãos da população, que passa a atuar por simples promessas sem rosto em campanhas eleitorais. Estes compromissos firmados têm como intuito apenas assegurar as aparências de um processo eleitoral que não se legitima após as votações, posto que os projetos políticos representados pelos candidatos e eleitos pela polução são esquecidos por ambos, eleitos e eleitores, após este período.
Deixa-se, então, nas mãos de falsos representantes o desejo do povo por um futuro mais próspero. Desta forma, aqueles que ascendem aos cargos decisórios da nação, pouco comprometidos com as causas populares que os levaram ao poder, acabam por romper os fictícios laços de confiança mantidos com a população quando, em detrimento dos interesses dos cidadãos, defendem suas bandeiras particulares diante do Estado. Assim, rouba-se o direito de cada brasileiro fazer-se representar politicamente, tornando cada vez mais distante o ideal democrático.
Engana-se, contudo, que tais práticas, identificadas com o política ilustrada, mas que configuram, genericamente, atos de corrupção, são adventos da "nova" era republicana, na qual o ideal democrático universalizou o voto, garantindo esta conquista aos iletrados e incultos, que, invariavelmente, são mais vulneráveis a má fé de candidatos pouco preocupados com os interesses nacionais. A corrupção acompanha-nos desde o período histórico em que o Estado brasileiro era apenas um embrião do ponto de vista político, a época colonial.
Muito embora não sejustifique a corrupção, historicamente, no Brasil Colonial vigorava um governo cujo acesso era limitado às elites econômicas, que usavam a máquina administrativa e legislativa estatal para assegurar sua estabilidade no setor produtivo e de comércio, através de ações firmadas na quadro político. Persistindo, até os dias de hoje, ainda que o país tenha aderido ao regime democrático, a marca dos interesses privados no espaço público.
Em um Estado, que é o estandarte da corrupção desde seu nascimento, os políticos não praticam menos política ao lutarem por seus objetivos particulares; fazem-na, na verdade, corrompendo o compromisso constitucional ao privarem cerca de cento e oitenta milhões de brasileiros da gestão de sua nação em conformidade com suas necessidades sociais.
Por conseguinte, todo o dinheiro esquecido em contas particulares de paraísos fiscais, todas as abssolvições de corruptos confessos em Comissões Parlamentares de Inquérito, orçamentos superfaturados e toda a sorte de despotismos e nepotismos praticados no Governo são a negação sumária da democracia, que, como regime político, dever-se-ia firmar a priori ainda no processo eleitoral, permitindo acesso às esferas de poder somente àqueles alinhados com os anseios da sociedade brasileira. Se houvesse tal preocupação, a corrupção seria uma prática menos recorrente na vida política do Brasil.
Tristemente, constata-se que o subdesenvolvimento, não apenas econômico, mas, sobretudo, social deste país, fundamenta-se em um ilusório regime democrático, que é atacado ferozmente pela corrupção no meio partidário e que se estende, em decorrência de nosso sistema eleitoral, para órgãos estatais. Nega-se, portanto, o ideal democrático, e também republicano, no qual acredita-se na garantia de acesso ao poder para todos os cidadãos de forma igualitária, já que, no universo público, destacam-se as ações políticas de cunho privado em prejuízo dos usurpados brasileiros.